c / e
Causa: ouço uma música - escrevo um texto inspirado nela. Abaixo, Morcheeba - The Sea.
I left my soul there,
down by the sea.
I lost control here,
living free.
Efeito:
No Mar
Porque olhar pro mar sempre dá vontade de chorar, nela. Por isso.
Não tinha gaivotas lá, nem nenhum pôr-do-sol maravilhoso. Era só mais uma dessas enseadas na qual o mar é cheio de sargaços e a maresia borra os óculos de todos os míopes. O sol brilhando lá em cima, clemente e soberano, escondendo-se por trás de uma ou outra nuvem de vez em quando. Uma nuvem gorda e branca, como aquelas desenhadas nos mapas de muitos séculos atrás, soprava uma brisa fria de fim de tarde, agitando as ondas quase inexistentes e desenhando formas surreais na espuma das cristas.
Foi até o mar, chutando e levantando ondas de areia. Brincou de Deus, fazendo ondas. Contemplou o horizonte. Era uma dessas praias desertas onde nunca se encontra nada, a não ser conchas mortas, seixos pequenos, água fria. Tocou a água com a mão. Não sabia o que esperar. Não conseguiu sentir nada a princípio, mas depois aquilo se tornou um simples impulso táctil. Sensações. Aquele movimento fluido que parecia gritar vida, mas que tinha se deixado destruir em algum lugar do passado.
Ela sabia de teorias que diziam que a vida tinha vindo da água. Disso? se perguntava. Seus cabelos de náilon esvoaçavam. Eram cores demais pra definir. Um emaranhado de fios que lembrava um velho jogo de pega-varetas. Levantou a vista e se deparou com uma série de manchas furta-cor espalhadas pelo oceano. Não sentia cheiro. Ela desligava todos os sentidos, quando chegava perto do mar. Não sabia explicar o porquê. O crepúsculo trazia consigo uma melancolia arrasadora. Às vezes, lembrava do passado. De experiências.
Sentiu como se fosse observada. Por mil – não, um milhão de – olhos. E lá estavam as gaivotas. Gritando alegremente, dando rasantes, molhando a ponta das asas. Vivas. Reais. Livres. Regressão?
Digressão.
As lágrimas escorreram-lhe.
Ilusão.
A liberdade estragara-lhe a alma. Acreditava nisso. Gostava de dizer que sabia, mas uma ou outra equação de subjetividade a impediam de realmente saber. Passou a mão sobre os fios do cabelo, sentindo um ou outro impulso de eletricidade estática. Livre.
O choro veio em pequenas ondas de agonia, logicamente pré-determinadas, ela sabia, mas as lágrimas nunca conseguiam ser reais o bastante. E ela não podia explicar isso. Pode, aquele que não tem lágrimas, chorar? Ela acreditava nisso também, e não deixava que ninguém a convencesse do contrário.
Achava que chorar a tornava mais orgânica.
Divagou sobre romances, mas isso lhe pareceu tão distante. A experiência a deixou desorientada, e ela se desesperou. Não sentia como se fosse natural – o prometido – mas, afinal, o que seria natural, no contexto? No pulso, nenhum relógio, mas ela conseguia contar as horas. Cada segundo. O mar a frustrava. Nenhuma equação, nenhuma lógica. Só a água, adaptando-se ao que quer que a contivesse. Milhões de anos de adaptação.
Sentou-se.
Logo escureceu, e a brisa fria tornou-se um sopro gélido. Ninguém apareceu, obviamente.
As preocupações se foram, então, no próximo instante, quando ela abriu os olhos e contemplou a manhã.
Olhou pro céu, num vestígio de esperança. Ainda não havia nenhuma gaivota. À distância, um velho píer dormia embalado pela massagem da água.
Levantou.
Adoraria – adoraria? – ficar, mas a cidade a chamava de volta. Mais problemas e mentiras no telefone. Era lá onde a essência da máquina – a essência da lógica e da matemática – a faziam se sentir parte do todo. Ironicamente, era lá onde ela não conseguia se sentir viva.
Pensou no que levou os homens ao seu topo social, e achou melhor perder o olhar dentro de uma outra nuvem, uma outra forma.
Olhou mais uma vez pro mar e se despediu.
Não fazia idéia do que tinha perdido dentro da imensidão do mar, mas era algo valioso.
Se alguém perguntar por que ela continua indo lá, ela não saberá responder.

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